A primeira carta

Eu era como a raposa do Pequeno Príncipe. Via os campos de trigo e eles não me diziam nada. Eram apenas campos onde o vento brincava assoprando as folhas para um lado e para o outro. Então, eu vi você.
Vi seus cabelos de trigo, com as raízes escuras e as pontas douradas. Vi o vento brincar neles, como uma criança.
Você estava sentada num banco, sozinha; um banco sob uma árvore modesta (tão modesta quanto poderia ser uma grande mangueira na sua presença). Seu vestido longo, marrom, fazia lembrar um uniforme antigo, clerical. As sapatilhas, verdes, só reforçavam a sua falta de necessidade de embelezar-se com excessos bonitos para fazer-se bela. Naquele momento, você era a criatura mais bonita que eu jamais vira.
Poderia passar horas olhando você. Admirando suas formas, o jeito como seu cabelo caída sobre sua testa. Poderia especialmente admirar a maneira como empunhava sua caneta no papel e a forma como seus lábios se contorciam levemente a cada frase que parecia sair com a tinta azul.
Um barulho ao longe tirou-me do transe de contemplação por um segundo e pensei ter visto você me olhando. Eu queria ir até lá. Queria dar alguma desculpa boba para sentar-me a seu lado e poder sentir seu cheiro. Mas não. A paralisação tomou conta do meu corpo e eu não conseguia mover-me um palmo. Ademais, não havia nada de inteligente para lhe dizer. Minha mente estava parada há tempos, presa na admiração muda da sua presença.
Procurei um anel em seu dedo (um anel pode dizer muita coisa), mas não vi nada. Suas mãos estavam lisas, austeras, não carregavam estandarte algum que indicasse sua posse.
Posse, pensei comigo. Mulher como você não se pode possuir. Sortudo seria o homem que, no máximo, pudesse chegar perto do seu coração por míseros minutos. Estaria para nascer aquele que lhe roubaria o coração por toda uma vida.
Num inesperado movimento, seus olhos percorreram a praça. Chegaram aos meus. Desviei em um átimo de segundo, tomado por puro pânico pueril. Queria ter ficado, juro. Queria ter tido a coragem de manter meu olhar a lhe fitar, mas a fraqueza tomou-me o corpo. Não havia em mim dignidade o suficiente para que me olhasse em flerte.
Senti seus olhos se afastando e brincando no espaço, atrás de alguma novidade aprazível. Esperei por algum tempo até voltar a lhe admirar.
Queria ter ficado preso naquele momento para sempre, mas a realidade atravessou minha testa como uma pedrada...

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