A segunda vez que vi você

Dizem que o amor à primeira vista acontece no momento em que se deita os olhos sobre a pessoa amada. O frisson, o enlevo, a ânsia.
Todavia, confesso que o segundo contato, não muito falado pelos apaixonados, é aquele que contém a sensação mágica do reencontro. Havia passado dias sem saber seu nome. Sem saber onde morava ou o que fazia. Nesses dias, imaginara que talvez nunca mais pudesse cruzar seu caminho e esse pensamento aterrador sufocava minhas emoções: foi tolice minha não ter lhe abordado de primeira! Faltou-me coragem? Assunto? Não sei... creio que a sua figura me foi tão baqueante que, naquele momento, não havia sequer necessidade de abordar-lhe. Era como se você fosse feita para se olhar. Admirar. Sofrer de amor.
Eu descia a rua quando vi você saindo de uma livraria. Não sabia o que fazer. Se a seguisse, seria como um maluco. Se fosse à livraria para tentar descobrir qual gênero literário lhe faz a cabeça, perderia sua figura de vista e retornaria ao ponto do "e se nunca mais a vir". Tomei a primeira rota.
Seu vestido, outro longo, tampava até o colo dos pés, impedindo de ver-lhe mesmo a sandália, que aparecia quando de cada passo. Estava com um casaqueto delicado, de linha, rosa, que lhe dava uma aparência de menina ingênua. O vento da rua rodopiava seus cabelos, que se jogavam de um lado para o outro das têmporas, mas você parecia não ligar. Não havia sol naquele dia, e o cinza que se formava combinava a cidade como um pano de fundo por onde você passava. Tive medo de que percebesse minha presença e me julgasse louco ou inconveniente. Torci para que não olhasse para trás.
Você parou de súbito numa vitrine. Era uma agência de viagens e você mirava as fotografias dos navios e aviões. Imaginei que gostasse de viajar. Você se parecia com aquelas pessoas que já mochilaram por ai, e tinha o ar boêmio da Europa impresso no estilo da mochila que carregava. Mais uma vez a achei linda. Mais uma vez me perdi em contemplação.
Queria tanto saber seu nome. Ao menos eu teria um nome para dar à razão das minhas noites mal dormidas. Um nome para adoçar a boca, quando quisesse lembrar você. Um nome, somente. Porque os nomes são importantes. Eles dão forma ao nosso desejo: colocam-no na prateleira das coisas conhecidas e queridas. Nomear significa tomar para si um pedaço daquele que está fora. E como eu desejei um pedacinho seu só para  mim. Mas, mais uma vez, não tive coragem...

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