Entre gôndolas
Eu vi você no supermercado.
Já fazia meses que não a via. Cheguei a pensar que era uma turista e que aquele meu frisson não teria vazão, senão no esquecimento.
Passei uma semana sonhando em encontrar-lhe novamente. Nada.
Depois, dia sim, dia não, me quedei resignado com as imagens residuais que tinha de você. Cantei cantigas, ensaiei passagens de livros, me emocionei com o Milton Nascimento cantando no rádio (quando chegou no no Roberto Carlos, precisei mudar de estação).
Foram dias difíceis, os primeiros. E a sua ausência foi se emoldurando como uma poesia antiga em minha mente. E então, tudo mudou.
Eu era um simples passante, enquanto você esperava a moça dos frios fatiar-lhe algo que enfeitasse seu café da manhã. Você usava uma calça (não era costume ver-lhe o contorno das pernas, dados os vestidos costumeiros) e uma sapatilha baixa, uma camisa de botões com um laço amarrado na cintura. Seus cabelos estavam presos, num coque desfiado na nuca. E você estava linda...
Detive-me atrás de uma estante de queijos, para olhar você sem ser incomodado. Entre um camembert e um gruyère, notava seus dedos curtos tapeando a vitrina fria, aguardando o retorno da atendente e seu pedido.
Confesso que, mesmo sem nunca dizer-lhe palavra, naquele momento, quis ter filhos com você. Imaginava como seria o seu cardápio, me baseando nas coisinhas da sua cesta de compras: papel manteiga (para fazer biscoitos?), manteiga com sal, pão integral, suco de uva de garrafinha de vidro (sim, porque os de caixinha teriam gosto de picolé de uva, suponho, assim como suponho que você não goste de picolé de uva). Havia também as pequenezas de cozinha _ papel toalha, sabão de coco_ e uma caneca tímida, cores pastéis, separada no canto da cesta (será que você é colecionadora de canecas?).
Pus-me a imaginar sua casa. Você tinha cara de artista. Ou de professora primária. Ou de ilustradora. Ou... eram tantas as possibilidades! Moraria sozinha? Com a família? Numa república? Era namorada de alguém com quem dividia um quarto? Estaria de carro no supermercado ou moraria por perto? Talvez morasse longe, mas gostasse de andar pelas calçadas, apreciando a rua e as pessoas. Eu deveria perguntar, mas...é engraçado o quanto fico realmente paralisado quando vejo você.
E se sumisse novamente? Ver você daquele jeito, depois de tanto tempo, fez reviver em mim aquela emoção inicial. Mais do que isso; trouxe para minha vida uma sensação tão perigosa quanto necessária: a esperança.
Mas eu ainda não me sentia preparado.
Da vitrine de queijos, me aproximei um pouco mais. Peguei uma senha de atendimento para o balcão dos frios e me posicionei discretamente ao seu lado. E a moça dos frios, retornou com o seu pedido, antes que eu pudesse ter qualquer ação. Você agradeceu docemente, virou-se de costas para mim e partiu por entre as gôndolas...
Já fazia meses que não a via. Cheguei a pensar que era uma turista e que aquele meu frisson não teria vazão, senão no esquecimento.
Passei uma semana sonhando em encontrar-lhe novamente. Nada.
Depois, dia sim, dia não, me quedei resignado com as imagens residuais que tinha de você. Cantei cantigas, ensaiei passagens de livros, me emocionei com o Milton Nascimento cantando no rádio (quando chegou no no Roberto Carlos, precisei mudar de estação).
Foram dias difíceis, os primeiros. E a sua ausência foi se emoldurando como uma poesia antiga em minha mente. E então, tudo mudou.
Eu era um simples passante, enquanto você esperava a moça dos frios fatiar-lhe algo que enfeitasse seu café da manhã. Você usava uma calça (não era costume ver-lhe o contorno das pernas, dados os vestidos costumeiros) e uma sapatilha baixa, uma camisa de botões com um laço amarrado na cintura. Seus cabelos estavam presos, num coque desfiado na nuca. E você estava linda...
Detive-me atrás de uma estante de queijos, para olhar você sem ser incomodado. Entre um camembert e um gruyère, notava seus dedos curtos tapeando a vitrina fria, aguardando o retorno da atendente e seu pedido.
Confesso que, mesmo sem nunca dizer-lhe palavra, naquele momento, quis ter filhos com você. Imaginava como seria o seu cardápio, me baseando nas coisinhas da sua cesta de compras: papel manteiga (para fazer biscoitos?), manteiga com sal, pão integral, suco de uva de garrafinha de vidro (sim, porque os de caixinha teriam gosto de picolé de uva, suponho, assim como suponho que você não goste de picolé de uva). Havia também as pequenezas de cozinha _ papel toalha, sabão de coco_ e uma caneca tímida, cores pastéis, separada no canto da cesta (será que você é colecionadora de canecas?).
Pus-me a imaginar sua casa. Você tinha cara de artista. Ou de professora primária. Ou de ilustradora. Ou... eram tantas as possibilidades! Moraria sozinha? Com a família? Numa república? Era namorada de alguém com quem dividia um quarto? Estaria de carro no supermercado ou moraria por perto? Talvez morasse longe, mas gostasse de andar pelas calçadas, apreciando a rua e as pessoas. Eu deveria perguntar, mas...é engraçado o quanto fico realmente paralisado quando vejo você.
E se sumisse novamente? Ver você daquele jeito, depois de tanto tempo, fez reviver em mim aquela emoção inicial. Mais do que isso; trouxe para minha vida uma sensação tão perigosa quanto necessária: a esperança.
Mas eu ainda não me sentia preparado.
Da vitrine de queijos, me aproximei um pouco mais. Peguei uma senha de atendimento para o balcão dos frios e me posicionei discretamente ao seu lado. E a moça dos frios, retornou com o seu pedido, antes que eu pudesse ter qualquer ação. Você agradeceu docemente, virou-se de costas para mim e partiu por entre as gôndolas...
Comentários
Postar um comentário