Eu vi a moça do pescoço à mostra...

...logo que ela atravessou a rua. Seus cabelos estavam presos displicentemente num coque às antigas, com umas mechas caindo em sua nuca e outras lhe emoldurando o rosto.
Perdi os olhos em suas saias, tão longas quanto convidativas, e me imaginei ali por um momento, à sua frente, recebendo suas passadas longas e despreocupadas. Seria lindo se estivesse cruzando a rua para me encontrar! Seria lindo se eu pudesse lhe esperar do outro lado de braços abertos, mornos, prontos para lhe enlaçar a cintura e elevar seu rosto até que a ponta do seu nariz tocasse a ponta do meu.
Vi que carregava um livro _ você, bela, sempre carrega um livro _ e que parecia se divertir com seus colares de pedrinhas coloridas dançando-lhe pelo colo (e que colo!).
Apressei-me para a esquina, na esperança de lhe roubar um pouco do perfume, mas havia carros demais, além das famigeradas bicicletas que cruzam essa cidade  como abelhas. Chegando ao ponto onde você estava, inspirei o mais fundo que pude: não sei se foi sonho ou se não, mas fantasiei seu cheiro como se estivesse com as têmporas pulsando sob as minhas narinas. De repente, você parou. Foi como se a multidão de transeuntes tivesse perdido a cor. Como se cada um seguisse, cinza, em câmera lenta, enquanto eu tentava me aproximar do seu corpo estático.
A dois passos, percebi que segurava uma nota, junto ao livro, e que a lia cuidadosamente, enquanto permanecia ali. Seus olhos, um par de amêndoas escuras, pareciam tristes e sua boca, entreaberta, dava mostras de que queria chorar. Quedei o passo e esperei. Era bonito lhe contemplar, mesmo assim, parecendo triste. Aliás, como és bela, mesmo entristecida e muda. Tive ímpetos de lhe abraçar. Queria dizer o quanto lhe protegeria, acaso fosse minha. Queria dizer que não deveria haver alguém no mundo  capaz de lhe deixar triste. Que aquilo era, no mínimo, um disparate, um acinte, um descaso.
Meu coração rufava no peito arqueado, qual uma orquestra desordenada. Se fosse minha, eu faria cartas de amor e esconderia entre seus livros, para que as lesse de supetão, sem data especial. Faria seu café da manhã todos os dias e traria margaridas pequenas para colocar no vaso que enfeitaria a bandeja (não, não lhe acordaria, mas ficaria olhando seu despertar preguiçoso e belo, sobre os lençóis brancos, até que finalmente abrisse os olhos e sorrisse como se ainda sonhasse).
Se fosse minha, menina, eu trabalharia só para chegar em casa após o trabalho e encontrar você, no sofá, lendo um livro ou uma revista daquelas de arquitetura e coisinhas bonitas. Sentar-me-ia a seus pés e lhe faria uma massagem demorada, com toda a paciência do mundo, até encontrar seus joelhos bonitos. Se fosse minha, lhe traria flores de vez em quando (mas ainda não sei se gosta de flores) e faria questão de comprar uns CDs com as músicas que mais gosta, mesmo que você dissesse que baixar pela internet era mais fácil. Compraria uma rede e a colocaria na varanda, só para ver você deitada nela e ficaria assim, vendo você por horas... Decorando a cor do seu cabelo, o jeito que o sol bate em seus ombros, a maneira como você cruza as pernas (sempre para o lado direito?).
Ah, se fosse minha, jamais lhe escreveria aquela nota que parecia lhe trazer tanta angústia, no meio da rua...

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