Em seus braços de seda
Meu bem,
o sonho era esse.
Já era tarde da noite e passava das dez quando ouvi um barulho à porta. Ao barulho, seguiu-se a campainha e eu nem me atrevi a olhar através do olho mágico, julgando que fosse o vizinho a pedir alguma coisa. Eu tinha acabado de sair do banho e já estava com roupas de dormir quando, ao abrir a porta, perdi a fala, perdi o chão: era você.
Estava com um vestido azul profundo, com um decote que lhe deixava as saboneteiras à mostra. Os braços estavam nus em pelo e, a julgar pela postura, à primeira vista me pareceu com um pouco de frio. Estava descalça e seus cabelos não portavam nenhuma ornamentação, qual é o seu costume (sempre vejo você com arcos, laços ou faixas enfeitando-lhe os fios). Seus olhos corriam o chão e pousaram nos meus por um breve espaço, voltando ao desvio incerto, característico àquele que se sente deslocado pela insegurança do desconhecido. Eu estava boquiaberto, sem fala. A única coisa que consegui fazer foi dar um passo para trás e oferecer-lhe que entrasse. Quando fechei a porta, seu braço roçou no meu, levemente; o que me valeu um arrepio guardado pela vida inteira. Virei-me para você e, apesar da cabeça baixa, seus olhos estavam agora fixos nos meus, como se me chamassem para perto. Aproximei-me. Cheguei perto o suficiente para cheirar-lhe os cabelos e roçar-lhe o rosto com a ponta do meu nariz. Sua pele era macia, etérea e seu hálito de maçã fresca me entorpecia os sentidos. Senti suas mãos pequenas a emoldurarem-me o rosto e seus dedos deslizavam em minhas faces, meus maxilares, meu queixo. Seu indicador direito pousou em meus lábios e instintivamente dei um passo à frente. Você sorriu, muito honestamente, sem mostrar os dentes e eu sabia que aquele sorriso era um convite. Suas mãos continuavam a explorar minha face, correu meu pescoço, minha nuca, enfim encontrando meus cabelos. Você se segurou neles e se deteve ali, ora prendendo uns fios, ora alisando-os, como se brincasse com eles. Como se brincasse comigo. E estava linda...
Acordei antes que pudéssemos nos beijar, com a sirene de uma ambulância a subir a rua. Ao olhar em volta, meu quarto estava vazio, triste. O único movimento era o do ventilador barulhento no teto e o único barulho restante foi o da beirola da cortina batendo baixinho no rodapé da parede da janela.
Estava tão perto, meu bem, tão perto. E a falta que sinto é tanta que já dou mostras de que não demora, fico louco.
Ah, o que eu não faria por você em minha porta...
o sonho era esse.
Já era tarde da noite e passava das dez quando ouvi um barulho à porta. Ao barulho, seguiu-se a campainha e eu nem me atrevi a olhar através do olho mágico, julgando que fosse o vizinho a pedir alguma coisa. Eu tinha acabado de sair do banho e já estava com roupas de dormir quando, ao abrir a porta, perdi a fala, perdi o chão: era você.
Estava com um vestido azul profundo, com um decote que lhe deixava as saboneteiras à mostra. Os braços estavam nus em pelo e, a julgar pela postura, à primeira vista me pareceu com um pouco de frio. Estava descalça e seus cabelos não portavam nenhuma ornamentação, qual é o seu costume (sempre vejo você com arcos, laços ou faixas enfeitando-lhe os fios). Seus olhos corriam o chão e pousaram nos meus por um breve espaço, voltando ao desvio incerto, característico àquele que se sente deslocado pela insegurança do desconhecido. Eu estava boquiaberto, sem fala. A única coisa que consegui fazer foi dar um passo para trás e oferecer-lhe que entrasse. Quando fechei a porta, seu braço roçou no meu, levemente; o que me valeu um arrepio guardado pela vida inteira. Virei-me para você e, apesar da cabeça baixa, seus olhos estavam agora fixos nos meus, como se me chamassem para perto. Aproximei-me. Cheguei perto o suficiente para cheirar-lhe os cabelos e roçar-lhe o rosto com a ponta do meu nariz. Sua pele era macia, etérea e seu hálito de maçã fresca me entorpecia os sentidos. Senti suas mãos pequenas a emoldurarem-me o rosto e seus dedos deslizavam em minhas faces, meus maxilares, meu queixo. Seu indicador direito pousou em meus lábios e instintivamente dei um passo à frente. Você sorriu, muito honestamente, sem mostrar os dentes e eu sabia que aquele sorriso era um convite. Suas mãos continuavam a explorar minha face, correu meu pescoço, minha nuca, enfim encontrando meus cabelos. Você se segurou neles e se deteve ali, ora prendendo uns fios, ora alisando-os, como se brincasse com eles. Como se brincasse comigo. E estava linda...
Acordei antes que pudéssemos nos beijar, com a sirene de uma ambulância a subir a rua. Ao olhar em volta, meu quarto estava vazio, triste. O único movimento era o do ventilador barulhento no teto e o único barulho restante foi o da beirola da cortina batendo baixinho no rodapé da parede da janela.
Estava tão perto, meu bem, tão perto. E a falta que sinto é tanta que já dou mostras de que não demora, fico louco.
Ah, o que eu não faria por você em minha porta...
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