Quem sabe?
Entre uma mordida e outra dum pastel de queijo, eu vi você.
Seus cabelos estavam crescidos, longos, lisos. A franja já
não existia mais: acompanhava a linha do rosto até tocar-lhe os ombros. Estava
de vestido escuro, um cinza, quase preto, na altura dos joelhos e sapatinhos de
boneca (que são a sua cara!). Nas mãos, trazia um caderninho de arame e uma
bolsinha colorida, cheia de poesia kitsch. Senti vontade de me aproximar para
cheirar você, deixar-me embriagar com as flores que encimam as notas do seu
perfume. Mal pude mexer as pernas, com medo de que você me avistasse com um
pedaço de pastel sujando o rosto. Engoli com ânsia o final do meu lanche, e
decidi que iria lhe abordar de alguma forma.
Acompanhei seu trajeto com os olhos, até uma gráfica, no meio da avenida. Ficou
ali uns dez minutos. Criei coragem e fui até lá, pronto para perguntar se eles
faziam encadernação (uma pessoa que se preze precisa de um álibi e aquilo era o
melhor que poderia pensar), enquanto dava um jeito de imaginar qualquer coisa
não muito idiota para chamar sua atenção.
Assim que atravessei a porta da gráfica, um senhor tropeçou,
caindo no meu colo. Você passou imediatamente atrás do velho: parou, esperou
para ver se estava tudo bem com ele, levantou os olhos para mim e sorriu como
quem dissesse: “ainda bem que está tudo bem, não é?”. E rapidamente desviou o
olhar, seguindo pelo mesmo caminho de onde veio.
Pasmo, acompanhei seus passos. Você foi diminuindo,
diminuindo e, finalmente, virou à direita. Não olhou para trás. Nem para
conferir o senhorzinho, sequer para encontrar meus olhos famintos por você.
Fiquei frustrado. Naquele milésimo de segundo em que me
sorriu, fui o homem mais feliz de toda a existência. Senti um borboletário
inteiro no estômago. Trocaria mil GPs de Fórmula 1 por outra olhada daquelas.
Mil GPs, dez finais de Champions League, qualquer infinidade de MMA e centenas
de barris de cerveja gelada (e olha que eu gosto bastante dessas coisas).
Durante alguns segundos, me detive parado à porta, absorto,
mirando a rua. De repente, um rapazinho que estava atrás do balcão, exclamou: “ih,
ela esqueceu o caderno de novo!”. Como um machado atirado certeiramente entre
meus olhos, voltei à realidade: “Pode deixar que eu entrego!”, disse, quase num
grito.
Não houve tempo de protesto: em um pulo, passei a mão no caderninho
e saí correndo pela calçada, farejando seu perfume qual um perdigueiro. “É
hoje!”, falava para mim mesmo, enquanto avançava corajoso avenida adentro. Quem
sabe não te encontraria?
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