Carta da saudade do não dito

Hoje estou triste, minha querida. Extremamente triste.
Há dias não perco os olhos em você... Nem sequer uma coincidência na fila do supermercado ou do banco ou... Você desapareceu por completo e, contigo, levou um pouco da minha alegria.
Pode parecer presunçoso de minha parte (decerto bastante presunçoso, já que não nos conhecemos ainda), mas sinto que já lhe conheço de tanto tempo.
Sabe, minha cara, me pus a pensar numas coisas. Essa minha admiração por você, meu desejo profundo por lhe ver, pela simples possibilidade de lhe conhecer, revela uma face minha que eu não via há tempos. Anos. Décadas.
É o solitário em mim que foi despertado pela sua aparição primeira. Paradoxalmente, sua luz iluminou tão a fundo minhas cavernas, que até a galeria mais profunda foi tocada. Aquela onde mora a solidão adormecida. Você a tocou. A fez acordar e, fazendo isso, a fez ter medo de voltar ao escuro.
Ah, meu bem, perdoa-me, mas é a minha solidão que está fazendo isso! É ela quem me pôs à prova quando você virou o assunto mais comentado entre meus neurônios!
Antes eu não me importava em andar por ai, despreocupadamente. Antes eu não pensava realmente a fundo em como seria meu futuro: se constituiria família, se teria filhos, se algum dia teria alguém com quem dividir as economias e o teto. Pensava que as coisas aconteceriam, caso tivessem de acontecer e, de mais a mais, nunca necessitei ter alguém a meu lado para me fazer mais feliz ou mais completo. Nunca, até avistar você.
E hoje, toda essa minha tristeza veio à tona, porque percebi, finalmente, que gostaria tanto de poder ir até você e dizer-lhe algumas poucas palavras; só as importantes. Então, talvez, nos conhecêssemos. Então, talvez, eu pudesse adormecer a solidão novamente, sem medo...

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