O caderno

Minha cara,

Comprei um caderno em sua homenagem. Sabe como são os homens, não é? Não reconhecem mais a própria letra depois da última prova escrita da faculdade. No máximo escrevemos em guardanapos de bar, preenchemos e assinamos recibos e, quando muito, rabiscamos uma lista de compras ditada pela mãe ou esposa (o que não é o meu caso). Homens não são seres de letras, em sua maioria, e se eu pudesse demonstrar minha admiração por você somente com músicas ou figuras, lhe enviaria cds, dvds e revistas com meus assuntos prediletos (que, em minha humilde imaginação, são os seus prediletos também). Mas não posso fazer isso. Ao menos ainda.
E então, comprei o tal caderno. Um depositário das coisas bonitas que sinto sempre que vejo você, ou que lembro de você. Sabe, passei até a filosofar mais sobre a vida depois da primeira vez que lhe vi. Você me tocou como uma vela acesa no escuro, fosse eu o próprio escuro. Passei a olhar mais para mim mesmo e percebi que eu, através da sua luz, fico mais bonito; me sinto mais bonito.
Lembrei dos grandes filmes de amor, das grandes óperas e das canções eternas que embalam os casais famosos. Lembrei das histórias de vida inteira que as pessoas contam nos livros e na televisão, sobre seus amores e seus encontros inusitados. Lembrei da única e derradeira forma de separação dos amores verdadeiros _ a morte_ que fosse, preferencialmente, daqui a muitos e muitos anos, como aqueles relatos dos velhinhos que se vão de mãos dadas, porque um não pode viver sem o outro.
Lembrei das namoradas que tive e das coisas que eu tinha mania de fazer na adolescência, quando queria me afastar delas, porque não sentia que uma poderia ser o grande amor da minha vida. Passei a refletir e a questionar-me também se alguma delas sentira por mim a admiração que sinto por você. Seria triste terminar um relacionamento se eu soubesse que havia tamanha admiração! Soaria quase como crueldade _ apesar de eu saber que pessoas terminam com pessoas o tempo todo e não há crueldade nisso; são fatos da vida: não se pode ficar com quem não se ama, concorda?
Lembrei ainda que tenho um amigo que não pensa assim. A moça escolheu seguir sem ele e ele ficou louco de raiva. Disse-lhe umas boas e até acusou a coitada de te-lo enganado por todo o tempo em que estiveram juntos! Coitado... ele não entendeu que ela não queria ficar com ele. Não entendeu que ele não era o "ele" da vida dela, apesar de terem vivido bons momentos e de ela até ter gostado dele (mas não o suficiente para comprometer a ele sua vida inteira). Paciência. Um dia isso passa; ou não. Um dia ele vai passar por ela na rua e conseguir dar um sorriso sem ressentimentos; ou não.
Mas isso é uma história que não é a nossa_ não mesmo! A bem da verdade, não temos história alguma... Ao menos, ainda.

Tenho um pouco de receio de que me ache louco, quando formos apresentados pelo destino. Será que eu terei coragem de mostrar-lhe o caderno recheado das afeições que eu já nutria enquanto nossos mundos não tinham ainda se cruzado? (Se bem que o seu mundo não só cruzou o meu, como o pulverizou). Será que em nossa primeira troca de palavras, você quererá passar do "olá" ao "muito prazer" e, depois, ao "então, quem sabe nós poderíamos trocar telefones e..."?
Seria bom trocar telefones com você...

Comentários

Postagens mais visitadas