Carta I - O início das histórias
(A partir de hoje, escrevo no caderno que comprei para registrar as coisas que vi depois de você. Um memorando, se assim o quiser, da minha nova alma. Seja bem vinda.)
Minha cara,
Escrevo à luz amarela, no cair da noite. Estou em meu apartamento, num daqueles grandes prédios do centro; antigo, amplo, abandonado à própria sorte desde que surgiram os belos e delgados edifícios dos bairros mais badalados da cidade. Da janela aberta, entram as cenas do anoitecer. Ao longe, alguns obreiros cantam louvores de dentro de suas igrejas rotas; aquelas construções que, de dia, não representam nada senão espectros de iluminação divina misturados à sujeira humana, à noite tomam um ar mágico, enlevado, quase divinal. É durante o culto que a igreja toma vida e finalmente parece habitada por alguma coisa parecida com um deus. E o clamor das vozes reverbera nas paredes do meu quarto, desenhando uma cantiga antiga, que acalenta até o coração dos que não creem em nada, só porque se faz bela a união dos timbres repletos de fé e súplica.
A janela traz ainda o ar refrescante da madrugada que virá em seguida. Um cachorro late insistentemente em algum lugar, não muito perto. Vez em quando, ouço o ronco de um motor ou outro, dobrando a esquina. Meu vizinho de porta parece estar à televisão (fica mudamente na televisão por horas, como um velho ou um louco ou um carente).
Hoje penso em você com um olhar diferente. Meu coração está calmo. Resignado. Contemplativo.
Compreendo você como a inspiração que me veio, num momento de extrema necessidade minha. Penso que passei a vida inteira esperando por ter a quem escrever essa carta. Que mãos a tomariam e a leriam? Ficaria confortável com as notícias aqui escritas? Teria paciência comigo? A quem dirigiria todas as minhas cartas? A quem, todos os meus desejos de compartilhar o bobo lugar comum, travestido de mágico?
E eu pus os olhos em você, naquele dia, como quem pousa uma colher de chá numa porcelana de colecionador; muito frágil e rara. E seu rosto ficou marcado em minha memória, estampado junto aos desejos de partilhar tantas coisas.
Foi assim que escolhi você.
Não foi meu cérebro. Não foi a lógica fácil dos sites de relacionamento. Não foi a razão dos amigos que unem outros amigos, à guisa do "acho que eles se parecem".
De repente, num momento, meu coração apressou-se em meu peito, descarregando um calafrio elétrico que me abriu os olhos, quase virando as pálpebras do avesso, enquanto dizia "é ela! É ela!". E eu poderia jurar de pés juntos que, naquele momento, inundando meus fones de ouvido, tocava Here, There and Everywhere no mp3.
Lembro-me disso tudo e, apesar de nunca ter trocado uma palavra com você, me sinto mais feliz. Me sinto desperto.
E nada mais é como antes...
Minha cara,
Escrevo à luz amarela, no cair da noite. Estou em meu apartamento, num daqueles grandes prédios do centro; antigo, amplo, abandonado à própria sorte desde que surgiram os belos e delgados edifícios dos bairros mais badalados da cidade. Da janela aberta, entram as cenas do anoitecer. Ao longe, alguns obreiros cantam louvores de dentro de suas igrejas rotas; aquelas construções que, de dia, não representam nada senão espectros de iluminação divina misturados à sujeira humana, à noite tomam um ar mágico, enlevado, quase divinal. É durante o culto que a igreja toma vida e finalmente parece habitada por alguma coisa parecida com um deus. E o clamor das vozes reverbera nas paredes do meu quarto, desenhando uma cantiga antiga, que acalenta até o coração dos que não creem em nada, só porque se faz bela a união dos timbres repletos de fé e súplica.
A janela traz ainda o ar refrescante da madrugada que virá em seguida. Um cachorro late insistentemente em algum lugar, não muito perto. Vez em quando, ouço o ronco de um motor ou outro, dobrando a esquina. Meu vizinho de porta parece estar à televisão (fica mudamente na televisão por horas, como um velho ou um louco ou um carente).
Hoje penso em você com um olhar diferente. Meu coração está calmo. Resignado. Contemplativo.
Compreendo você como a inspiração que me veio, num momento de extrema necessidade minha. Penso que passei a vida inteira esperando por ter a quem escrever essa carta. Que mãos a tomariam e a leriam? Ficaria confortável com as notícias aqui escritas? Teria paciência comigo? A quem dirigiria todas as minhas cartas? A quem, todos os meus desejos de compartilhar o bobo lugar comum, travestido de mágico?
E eu pus os olhos em você, naquele dia, como quem pousa uma colher de chá numa porcelana de colecionador; muito frágil e rara. E seu rosto ficou marcado em minha memória, estampado junto aos desejos de partilhar tantas coisas.
Foi assim que escolhi você.
Não foi meu cérebro. Não foi a lógica fácil dos sites de relacionamento. Não foi a razão dos amigos que unem outros amigos, à guisa do "acho que eles se parecem".
De repente, num momento, meu coração apressou-se em meu peito, descarregando um calafrio elétrico que me abriu os olhos, quase virando as pálpebras do avesso, enquanto dizia "é ela! É ela!". E eu poderia jurar de pés juntos que, naquele momento, inundando meus fones de ouvido, tocava Here, There and Everywhere no mp3.
Lembro-me disso tudo e, apesar de nunca ter trocado uma palavra com você, me sinto mais feliz. Me sinto desperto.
E nada mais é como antes...
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