Carta V - outras verdades não ditas

Minha querida,

Hoje você  me veio em pensamento, enquanto eu dirigia de manhã. Era uma viagem não muito longa, e me permiti pensar em nossa história futura, se tivéssemos uma. Tropecei na dificuldade de exprimir o que sinto a alguém de carne e osso e, em contrapartida, na facilidade com que ponho algumas coisas no papel. Não tenho ideia do que aconteceria caso nos conhecêssemos. Não teria controle algum da situação. Você poderia muito bem achar graça em minha paixonite ou poderia não me dar bola alguma. Poderia ainda comprar meu peixe e e sair comigo (o que seria glorioso). Mas o que eu queria dizer mesmo é que, para as coisas que importam, sou um cara lento. Devagar, quase parando. Posso ficar décadas analisando alguma coisa, quando realmente preciso tomar uma decisão séria. E você, para mim, é uma possibilidade séria. Se eu trombasse em você antecipadamente, poderia fazer tudo errado. Daria com os pés pelas mãos e não teríamos chance. É como uma história que li há algum tempo atrás e que, para mim, faz todo o sentido:

Um homem e uma mulher estão na mesma fila dos correios. Ele tem 8 anos a mais que ela. Ambos se parecem em muita coisa: adoram o mesmo tipo de música, curtem cinema, gostam de cozinhar. Ele é mais caseiro e ela é mais saideira. Bebem pouco. Ambos possuem o mesmo nível de escolaridade e também carregam na bagagem intercâmbios em países iguais. Caso se conhecessem naquele momento, teriam adorado o papo. Decerto marcariam um encontro. Depois outro. Quem sabe ficassem noivos. Casassem. Contudo, quis o destino que eles se trombassem quinze anos antes, quando ela tinha apenas dez anos. Ele tinha dezoito. Foi um encontro casual, numa escola em comum. Nada de mais, só uma esbarrada sem importância, onde o adolescente se desculpa à criança e segue seu caminho. Não houve encontro. Não poderia haver. Ironicamente, uma possibilidade de casal perfeito tinha sido formada e desfeita, em um segundo, porque o tempo de ambos não coincidia...

Sei que corro o risco de que algum outro cara chegue e lhe conquiste primeiro. Sei que corro o risco de que o tempo passe e de que eu não passe de um ridículo que nunca teve coragem de lhe dizer o que sinto. Mas esse tempo de reconhecimento, de reclusão, é importante para mim. Não sou um cara religioso, mas até que os antigos tinham razão: há tempo para tudo sob o sol. E esse ainda não é o tempo do encontro. É o que sinto. Mas isso não diminui o quanto admiro a sua figura lânguida, com seus longos vestidos...

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