Carta VII - souvenir

Minha cara,

Enfim, você! Estava linda naquele café do aeroporto, comendo um pão de queijo tão delicadamente, que parecia querer fazer amizade com ele. Na xícara ao lado do pãozinho, um cappuccino afogado em chantili me contou que você não tem frescuras com a gastronomia. Que visão!
Logo hoje, que eu estava tão atrasado para pegar um chefe do trabalho que chegara de longe, você se colocava ali, tão disponível...tão próxima...tão...esquecida! Ao levantar-se, deixou um moletom cinza abraçando a cadeira e correu rampa abaixo ao som do que parecia ser a última chamada para o seu voo. Foi tudo tão poeticamente rápido que fiquei sem ação: não sabia que corria atrás de você para lhe entregar a peça ou se corria atrás de você e deixava o moletom para lá. Como de costume, não fiz nem um, nem outro: andei pacientemente (porém a passos largos) até a cadeira, peguei a roupa como se fosse de um conhecido íntimo, e me desloquei para a rampa, andando devagar para ver se você notaria o esquecimento e, quem sabe, voltaria.
Você não voltou. no final da minha descida, pude ver sua silhueta entrando na sala de embarque, sem olhar para trás. Naquele momento, uma estranha sensação percorreu meu corpo todo. Era como se eu já lhe conhecesse tanto e há tanto, que você não precisaria chorar a perda do moletom: eu o guardaria e esperaria seu retorno, para entregar-lhe num momento fortuito. Dentro de mim, eu sabia disso. Eu sentia isso. Mas, para você, toda essa minha familiaridade com sua roupa seria bastante estranha (decerto vai me julgar um louco quando eu lhe devolver a peça).
Pensei em deixar no balcão da operadora do aeroporto. Talvez teriam um achados e perdidos. Quem sabe se eu descrevesse você e entregasse a roupa a um dos seguranças? E se eu chamasse você pelo balcão da Infraero?
(ok, isso seria um problema, já que não tenho seu nome ou sobrenome)

Nesse momento, recorri ao moletom, para que me desse alguma pista. Nada num bolso. Nada no outro. Era uma peça simples, parecia novo, cinza claro, parecia servir-lhe como daquelas roupas confortáveis de se usar em casa. Num impulso inconsciente, levei a roupa ao nariz e respirei profundamente.
Seu perfume me inundou a alma. Estava nele. Em todo ele, especialmente no colarinho.
Ah, moça... por você eu ficaria no aeroporto para sempre! Mas agora tenho um moletom para cuidar, até você voltar...

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