Nota matutina

Cara minha,

meu coração está confuso. Não compreendo querer-lhe tanto e, ao mesmo tempo, lhe saber tão pouco. Quando volto para casa sempre carrego comigo a sensação de que sou um homem completo, contudo, completamente triste, posto que o sentimento de amor pelo que me completa está me levando ao perdido, a uma mulher que nem sequer sabe o que se passa comigo.
Como poderia isto ser amor? Não consigo explicar. Só sei o que sinto. Só sei dessa corrente elétrica que me corre o corpo quando penso em sua nuca nua, sob os cabelos curtos. Quando lembro do seu andar macio e dos vestidos esvoaçantes, cobrindo-lhe os joelhos delicados.
Sua figura é a lembrança mais terna e mais melancólica que carrego nos ombros. Queria, às vezes, não lhe ter visto. Pouparia-me a saúde fragilizada pela falta que me faz. Cansei de buscar-lhe pelas ruas e flanar no vazio, no quase. Ontem pensei ter-lhe visto dentro de uma loja. Por detrás do balcão o vulto parecia o seu, mas a julgar pelo meu estado mental, pode ser até que já esteja enlouquecendo e emprestando sua imagem para qualquer outra que não você, só para acalmar meu peito.
Querida, queria dizer-lhe coisas bonitas. Queria falar de esperanças e do quanto é certo meu querer por você. Queria mesmo é que você soubesse que irei buscar-lhe enquanto houver tempo meu sobre essa terra e que não precisa preocupar-se: jamais haverá outra mulher que lhe tome o posto da minha admiração e desejo.
Entre alguns livros que guardo, encontrei essa poesia. Sinta-se como fosse sua.

As não razões do amor
Me explicam mais que o dito
_ o frio, o medo, a falta_
E a tua ausência só aumenta a minha sombra
Em mesma medida em que aumenta meu fascínio

Posto que, amante, voluntariei-me à veste da melancolia
E tu, amado, é o fogo que ilumina as paredes da minha fantasia


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