Clair de lune

Meu amor,

se pudesse ler essa carta, escutando Debussy. E se seu corpo for tão feito de poesia e lirismo, quanto parece...



Os dias se amontoaram em semanas, que se empacotaram em meses e eu nunca mais vi você.
Confesso, emagreci uns quilos e creio que me caíram uns poucos fios de cabelo. O moletom perdeu seu cheiro e agora preciso contentar-me com a memória do olfato quando fecho os olhos e penso em você.
Não, querida, não está ficando difícil lembrar de você. A sua imagem dança em minha mente tão nítida como se estivesse ali, à minha frente. Há músicas que invocam a lembrança de você. Há cores, lugares, frases. Vejo estranhos enamorados pelas ruas e, secretamente, queria tanto que fôssemos nós.
Passei pelas ruas em que encontrei você, para ver se teria a tal sorte de lhe rever mais uma vez e, dessa vez, abordar-lhe. Andei à esmo por volta do mercado, conferi cada gôndola, saí pela porta da frente, atravessei a rua e esperei você passar. Nada. Parece que você desapareceu para sempre.
Esta noite a dificuldade de dormir foi só mais um dos sintomas da melancolia que tomou conta de mim depois que vi você pela última vez.
Desculpe-me, meu bem, por não ter sido capaz de lhe abordar a tempo. Invoco os anjos para que se apiedem de mim e me deem algum conforto para a confusa dor que sinto. Para mim, tão certo quanto um homem deve trabalhar e servir à humanidade, é que ele deveria encontrar uma igual para, naturalmente, fazer um ninho, montar um canto, cuidarem-se.
Hoje vou buscar-lhe novamente. Busco-lhe a cada dia que passa, na esperança de, quem sabe, reencontrar você. Não faço disso uma tarefa, minha querida. Não é um fardo: é só um desejo. Um desejo que não cessa e que, por isso, parece-me que é o certo a se fazer. Se eu não mais a vir, estarei irremediavelmente triste. Mas, se eu a vir, meu coração voltará a escutar os sinos da felicidade.

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