Lorca, Garcia
Meu bem,
seu espectro se me ronda, como a mão da mãe ao filho novo: sempre volvendo, sempre voltando.
Hoje li Lorca e você inundou a biblioteca, como uma lufada do calor mais sonolento e resignado que senti nos últimos tempos. Em cada poesia, via você. Ay, amor, que se fue por el aire!
Sei que é quase chegada a hora de reencontrar você. Sinto uma inquietação nalgum canto do peito, como que um sismógrafo capta o tremor porvir. Guardo na mente a última vez que meus olhos descansaram em sua figura. Lembro do vestido. Lembro da bolsa. Lembro do seu semblante despreocupado, esquecendo o moletom enquanto descia a rampa do aeroporto. Como estava linda!
Já leu Lorca, minha querida? Aposto que já. Você parece que já leu de tudo um pouco e sempre me passa a impressão que tem algumas linhas a dizer sobre qualquer assunto. Penso que seu prato favorito seja a literatura: você se parece com uma pessoa que lê. E também parece que escreve, à moda antiga (já notei o calo de escrita que tem no dedo médio da mão esquerda _ canhota, ainda por cima, ai de mim!).
Quero assentar-me com você à sombra de uma árvore e lhe escutar contando histórias fantásticas. Se for tão boa narradora quanto parece... Já me deixou enfeitiçado só de olhar-lhe, quiçá me deixaria assim ao me narrar algo!
Sinto saudades de lhe conhecer. Saudades do que há por vir, se vier.
Espero, um dia, poder lhe abordar em carne e osso. Espero que me espere.
Por enquanto, como o Lorca, vejo assim a cena da minha janela:
"(...)Las calles están desiertas
y en los fondos se adivinan,
corazones andaluces
buscando viejas espinas..."
y en los fondos se adivinan,
corazones andaluces
buscando viejas espinas..."
com carinho,
eu
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